Hoje.

Hoje eu to aqui sentada num café no centro de Montreal, esperando minha amiga pra gente sair pra jantar, ouvindo uma musica, pensando na vida.

Até parece um dia bem normal da vida que eu costumava ter. Exceto pela culpa, que tá sentada aqui na cadeira do lado.

Não importa, eu sei que Marvin tá bem, tá em casa com o pai dele, provavelmente correndo, falando horrores e brincando. Mesmo assim eu me sinto mal por estar aqui, “fazendo nada” sendo que eu poderia estar lá com eles. Penso que o Léo já faz tanto, e que talvez eu não esteja sendo justa, afinal ele também faz dupla jornada. Fico pensando que talvez seria melhor eu voltar logo, pra que o Marvin não sinta muita falta, e juro, mais um monte de coisa se passa na minha cabeça agora.

E aí to aqui hoje, depois de uma noite sem dormir porque o bebê só quis ficar mamando à noite toda, pensei em voltar direto pra casa, mas a real é que eu preciso aprender a ter esses momentos só meus. Ou faço isso ou eu não dou conta. Ou faço isso ou o tempo que eu passo com meu filho não é de qualidade.

Eu que sempre fui ansiosa e complico tudo, ainda não me adaptei totalmente as demandas que a maternidade exige de mim. No fim, eu sei que Léo tem razão em dizer que eu preciso ser mais leve no meu maternar, que preciso entender que eu muitas vezes sou tudo o que o Marvin quer, e que tudo bem.

No fim eu sempre acabo frustrada. Se eu quero que Marvin durma cedo pra que eu possa resolver tantas coisas que preciso, óbvio que vai ser o dia que ele não quer dormir, e aí fico chateada. Mas quando ele dorme, fico mal por não ter aproveitado o tempo que eu tive com ele da forma que eu deveria. Frustração contínua de coisas que não posso controlar.

Aliás, tá ai o problema, a minha mania de querer controlar tudo o tempo todo, assim eu sei o que esperar e como agir em todas as situações. Ter um filho tá sendo um chacoalhão da vida todo dia pra me lembrar que eu não controlo nada na real.

E olha só, escrevendo aqui, eu pensei que talvez eu só devesse mudar o foco. A única coisa que eu posso realmente controlar é como me sinto e como eu penso sobre as coisas que acontecem. Então talvez eu só precise lembrar disso o tempo todo, especialmente nos dias que o cansaço me consome e eu me pergunto onde eu fui me meter.

Escrever hoje foi quase ter ido na terapia, e isso é sempre bom.

Então vou lá continuar esperando a amiga, vou aproveitar meu tempo com ela, tentando não me sentir culpada por não estar com meu filho, e depois chegando em casa eu vou poder aproveitar melhor meu bebê tão falante e sorridente.

Respira, não pira, como essa amiga já me disse uma vez.

Feliz 2019 pra mim.

2018

Teve crise dos 4 meses do bebê. Introdução alimentar. Primeiro pronto socorro, segundo também. Teve família perto. Teve mergulho no mar por um mês inteiro (tem como voltar?), comida deliciosa, vale dias (vale night não funcionou aqui), o primeiro ano do pequeno, e a festa feita a muitas mãos e que foi nossa cara. Teve bebê aprendendo a engatinhar, e opa, agora ele já tá correndo, socorro. Teve bebê falador e carinhoso. Teve saudade do Canadá, e ele também sentiu falta da gente, porque inclusive nos aceitou como residentes permanentes.

Teve muito empoderemento feminino, encontros lindos, amor e amor e amor por todos os lados. Teve muito aprendizado de vida, desses profundos que faz marca na nossa história.

Ainda em processo, tem eu tentando me entender como mãe. Tentando me lembrar que minha vida mudou, e que o sono excessivo, a falta de tempo livre, a solidão, e os desesperos, uma hora acabam. Respirando fundo pra me lembrar de aproveitar os dias, de rir junto, de viver o agora, de ter paciência infinita e de saber pedir ajuda. Eu me perdi e me achei mil vezes esse ano. Ainda não sei quem sou. Mas to tentando me achar no meio do caos e do amor.

It takes a village to raise a child. É preciso uma aldeia pra criar uma criança. E isso nos fez decidir voltar ao Bonjour e ao merci, voltar para o inverno de -20 com gelo na calçada. Mas olha, a cidade é maior, tem metrô, e tem família também, família de sangue e família que a gente escolheu, o combo perfeito.

Teve medos e erros. Teve muita cumplicidade e união pra saber superar os dois, ainda bem.

Meu maior aprendizado desse ano é que a vida é mesmo rara. Talvez ao segurar um bebê que saiu de mim pela primeira vez, me deu a certeza que no fundo a gente já tem mas nem sempre lembra, a certeza que todos nós nascemos, e um dia, todos vamos morrer. Então que tal ser feliz nesse meio? Vamos realizar sonhos, tentar melhorar como pessoa, ter mais empatia, ter mais amor, tentar entender que o universo não gira em torno do nosso umbigo. Vamos entender que as pessoas são diferentes, e que tudo bem. Que tem dias bons e outros ruins, e que isso faz parte de viver. Passa rápido, sério.

Em 2019 eu quero me cercar do que me faz bem. Quero realizar sonhos, mesmo que eu esteja morrendo de medo, vou com medo mesmo. Quero ser menos egoísta, ser mais companheira, ser uma pessoa melhor pra assim poder ser uma mãe melhor também. Quero leveza, dias quentes, video game e amigos em volta. Mais que tudo, eu quero continuar vendo meu menino crescer de perto.

Pode vir, ano novo, eu to pronta.

 ❤️

(E eu ja subir um milhão de fotos desse ano, mas vai uma só por ser o resumo do que fica)

7 meses

Vá com calma, tempo.

Mesmo que eu me pergunte se aquele dia tão difícil falta muito pra acabar. Mesmo quando as vezes, no desespero, eu choro naquela noite que o bebê não dorme. Eu não tenho pressa.

Não tenho pressa de ver cada conquista nova, de acordar com a mão dele no meu rosto, ou mesmo de passar a noite toda na mesma posição pra que ele se aconchegue no meu peito.

E vão ter dias que eu vou querer que acabem rápido, mas entenda, tempo, é só o anseio de uma nova mãe que tá querendo isso. Porque, na verdade, a mãe que pariu há tão pouco tempo, anda até assustada com o quanto sua cria já tá grande.

E ela sabe que daqui a pouco o bebê vai engatinhar, e andar, e largar do peito, e vai pra escola, e vira adolescente. Essa mãe sabe que esse momento é finito, que a gargalhada que o bebê dá hoje vai acabar para dar espaço a gargalhada de criança, de jovem e de adulto mais tarde. Ela sabe que ele vai caber inteiro no seu colo por pouco tempo. E que o colo vai ser tudo que ele precisa por menos tempo ainda.

Então, tempo, vá com calma. Deixa essa mãe aqui curtir o cheiro de quando ele acorda, a esfregadinha no olho de quando ele tá com sono, as brincadeiras no chão da sala, as noites longas, a mãozinha segurando o pézinho, o sorriso no meio do tetê.

Porque eu não tenho pressa, nem um pouco, de viver tudo que temos pra viver juntos.

Mãe

Nada te prepara pra ser mãe.

Nenhum texto da internet te conta da tristeza que bate quando você se da conta que sua vida mudou pra sempre, e ao mesmo tempo você não imagina mais sua vida sem aquele bebê.

Nenhum livro te explica o que fazer naqueles dias que você chora junto com o bebê por não saber o que você está fazendo de errado. E muitas vezes você nem está, é só um dia difícil, e vai passar.

Nenhum vídeo te prepara o suficiente para o puerpério. Esse que é tão difícil, pesado, confuso, que nos faz rir e chorar ao mesmo tempo, que nos faz questionar todas nossas escolhas e nossa vida, que torna tudo intenso e que, as vezes, demora pra passar.

Não tem conselho que acalme seu coração quando seu bebê chora e você não sabe o motivo.

Não existe amor próprio que faça com que você ame totalmente seu corpo no pós parto. Ele mudou, tá diferente, tem marcas, tá flácido, tem outra forma.

Ninguém te avisa que criar um filho não tem resultado diário, e que as vezes você vai dormir exausta sendo que você “só cuidou do bebê” o dia todo e se sente culpada porque não fez mais nada.

Nenhum médico te fala que amamentar é muito mais que ter leite e arrumar a pega. É se doar, não importa a hora, lugar, ou humor, pra alimentar e acalmar o bebê que tanto precisa de você.

Nada te prepara pra sentir esse amor viceral, sincero, único, essa coisa maluca que você sente só de ver seu bebê gargalhando enquanto você canta “Que que tem na sopa do neném” no corredor de casa.

A real é que você aprende a ser mãe aos poucos. Errando, acertando, fazendo o melhor que você pode naquele momento. Tem dias fáceis, outros difíceis, dias que você chora por não saber direito o que você está fazendo, outros que você chora de tanto amor, e muitos outros que você chora de felicidade em ver um serzinho tão lindo e incrível crescendo e se desenvolvendo na sua frente.

Obrigada, Marvin, por me permitir viver isso.

Feliz dia das mães pra todas nós.

Até já.

Hoje foi dia de dizer uma até logo pra esses dois, meus pais que tanto amo, e agora também os avós do Marvin.

Parece bobo falar, mas é muito verdade que quando temos filhos a gente tenta melhorar ainda mais. Eu já vinha tentando me entender melhor como pessoa faz tempo, mas desde que o Marvin tava crescendo em mim, eu tento ainda mais entender meus medos, ansiedades e falhas, pra que eu possa ser uma pessoa melhor, e consequentemente uma mãe melhor também. Óbvio, não quero ser uma pessoa perfeita, isso nem existe.

Bom, eu to dizendo tudo isso, porque eu sou uma pessoa extremamente fechada. Eu não sou de abraçar, de beijar, de ficar falando eu te amo. E esse sempre foi um medo enorme com meu filho, de eu não ser carinhosa. E sei que meus pais sentem falta disso, como não sentir, né? E aí eu tava com uma angústia enorme essa semana por saber que eles estavam voltando pro Brasil e eu não tinha dito pra eles tudo que eu queria e nem demonstrado de alguma forma.

Eu finalmente consegui ontem dizer pra eles tudo que eu queria. Dizer pra eles o quanto tê-los aqui comigo desde outubro foi essencial, o quanto eu os amo, o quanto sou grata por tudo, tudo que eles fazem por mim e pela minha família, e principalmente, o quanto vou sentir falta deles aqui.

Foram 3 meses que a gente pode se dedicar totalmente ao Marvin, e todo dia tinha comida fresca, roupa e casa limpa, água fresca pra mim enquanto eu amamentava, um lanchinho da tarde sempre pronto, quantas vezes não dormimos durante a noite, e de dia a gente conseguia descansar porque esses dois ficavam com o Marvin. Enfim, era muito amor em todos esses pequenos detalhes.

Mãe e pai, só quero que saibam que eu sou grata por ter vocês como meus pais, e que eu os amo muito, muito mesmo. Obrigada por estarem aqui, por terem me apoiado e ajudado tanto no parto e também nesses 3 meses, e por nos dar tanto amor.

Essa é a parte da imigração que as vezes chega a doer, ficar longe de quem se ama.

2017

Último dia do ano mais marcante da minha vida, o ano que meu filho nasceu.

Esse post é rapidinho, só pra lembrar de agradecer por tudo que aconteceu nesse ano, e foram tantas coisas.

Começamos o ano com uma mini férias, cheia de imprevistos, mas cheia de histórias pra gente contar pra vida toda.

E aí logo em fevereiro veio a notícia que ia mudar pra sempre nossa vida, eu estava grávida.

Depois veio a mudança de cidade, no trabalho, a barriga crescendo, a gente descobrindo uma vida nova.

Muita preguiça na frente da TV, muito videogame, muitos jantares, muitas risadas, muito amor.

E aí chegou o dia de conhecer nosso pequeno, e um mundo novo se abriu.

Sei de pouca coisa nessa vida, mas sei que o Marvin veio pra nos ensinar algo grande, forte e profundo.

Para o próximo ano só quero que a gente continue tendo amor, que nossa família continue unida, e que muitos sonhos se realizem.

Vem 2018, vem que eu to pronta pra viver novos dias ❤️

{Meu relato de parto}

[Eu nem tentei deixar esse texto pequeno, eu tentei colocar aqui todo o processo pra chegar onde chegamos, e tudo que senti naquele dia. Vai ser textão.]

Eu ainda estou tentando assimilar tudo que aconteceu no dia do meu parto. A verdade é que é o dia mais intenso e mais lindo que aconteceu na minha vida.

ANTES

É engraçado, lembro que quando descobri que tava grávida, eu sabia que queria um parto natural, mas eu nunca tive o que tantas chamam de um “parto dos sonhos”. Eu só queria que meu filho viesse ao mundo no tempo dele, sem nenhum tipo de droga, e se possível, fora de um hospital. Basicamente era isso.

A gente ainda morava em Montreal, e lá eu estava lutando pra conseguir uma casa de parto, já que eu não acreditava que nossa casa era adequada pra isso. Com a mudança pra Oshawa, e na nossa nova casa, eu não tinha mais dúvidas: eu queria um parto em casa.

Aqui no Canadá tenho a opção de fazer o acompanhamento da gravidez com o obstetra ou com as midwives (que são tipo as enfermeiras obstetras no Brasil), e assim que chegamos eu fui atrás de achar uma midwife pra chamar de nossa. Marquei duas consultas em locais diferentes, e quando chegamos na segunda consulta, saímos de lá com a certeza que tínhamos encontrado quem ia acompanhar a gente. Nós ficamos então no team 6, com a Shannon e a Alexia.

Pensando hoje, minha gravidez foi linda. Eu já to com saudade de estar grávida, juro! Tirando o enjoo que durou até praticamente o sétimo mês, e as dores normais de gravidez (lombar, pé da barriga, cansaço eterno), tudo ocorreu bem, tanto comigo quanto com o Marvin.

Lá no finalzinho, veio uma preocupação, no exame de sangue vimos que meu nível de ferro no sangue estava baixo, e se continuasse como estava, as midwives não recomendavam mais o parto em casa por risco de hemorragia. O mais legal de tudo isso, é que apesar de elas não recomendaram, a escolha final é sempre minha.

Bom, foram semanas tomando suplemento de ferro, e com alimentação focada em melhorar meu nível do ferro, e no último exame, chegamos ao que elas falaram de “nível aceitável” para o parto em casa.

As semanas foram passando, nossas consultas começaram a ser semanais, parei de trabalhar com 38 semanas, meus pais chegaram, e dia 5 de novembro, a data prevista de parto, ia se aproximando.

Na última consulta antes da data prevista, a Alexia nos explicou o que aconteceria caso ele não nascesse até 41 semanas e 3 dias. Uma longa conversa sobre possíveis induções e aí, meu plano de ter em casa não funcionaria mais.

Passei a conversar e explicar pro Marvin tudo isso. Lembro de um dia naquela semana sentada sozinha eu falar pra ele que eu queria muito que ele viesse no tempo dele, mas que se ele continuasse ali até dia 15 de novembro, eu teria que ajudar um pouco.

Dia 30 de outubro tivemos consulta, e fizemos o deslocamento de membrana, que nada mais é que um método mais natural de ajudar a induzir o parto. Se o bebê estiver pronto, o procedimento ajuda a iniciar o trabalho de parto, se ele não estiver pronto, é só um procedimento bem doloroso mesmo. E foi só isso, uma dor horrível. Marvin não tava pronto ainda.

Chegou dia 4. Tive algumas contrações de treinamento, bem espaçadas e com durações diferentes. Liguei pra Alexia, falei como estavam as contrações, e ai ela me falou que estava doente, e que caso eu entrasse em trabalho de parto aquele dia ou no dia seguinte, eu teria outra midwife, porque ela infelizmente não poderia vir (a Shannon estava de férias). Fiquei com medo, mas óbvio que entendia a situação. Tomei um bom banho de banheira, e as dores foram embora. Ainda não era o trabalho de parto.

Dia 5 chegou, 40 semanas. E foi um domingo como outro qualquer, uma barriga enorme, dores leves, expectativa, e só. A noite foi chegando e eu percebi que o Marvin não queria dividir o dia dele com ninguém (o avô do Léo e meu tio fazem aniversário dia 5).

[auto retrato no dia 5, que saudade da minha barriga!]

Eu já tinha consulta agendada pra segunda dia 6 no período da tarde, e logo de manhã me ligaram pra remarcar pra dia 7, porque a Alexia continuava doente. Então tá, vamos lá pra mais um dia grávida. E esse foi meu último dia grávida do Marvin.

DURANTE

Acordei com um susto enorme, e vi que eu tinha molhado toda a cama. Léo, acorda, minha bolsa estourou. Olhei no relógio, era 2:45 da manhã. Respirei fundo, mandei a ansiedade embora, eu sabia que isso não era necessariamente um sinal de que o Marvin estava chegando. Eu poderia esperar mais 4 dias inclusive. Mas logo em seguida eu senti uma dor forte. Baby, isso foi uma contração! Bora começar a monitorar. Uma hora monitorando, contrações a cada 3 minutos, com duração de 1 minuto. A gente só liga pra midwife quando estamos com contrações por uma hora a cada 5 minutos e com 1 minuto de duração, o famoso 5:1:1. Bom, acho que tá na hora de ligar. Ligamos. Lembro vagamente do Léo falando com a Alexia, e ela pediu pra falar comigo, me perguntou como estavam as dores, pra mim elas estavam fortes, bem fortes. Ela nos disse então que estava a caminho.

As contrações doem. Uma dor única, forte, intensa. Mas eu tava preparada pra elas. Eu soube respirar, soube encarar uma de cada vez sem pensar na próxima. Eu dormia entre cada contração, sim, dormia! Lembrei dos exercícios de respiração, e pensava o tempo todo sem parar: eu sei parir e meu filho sabe nascer, I’m the one with the force and the force is with me. JURO, esses foram meus lemas durante meu parto. Talvez eu seja fã de Star Wars, talvez.

Comigo o tempo todo eu tive o Léo, que me deu força, me incentivou, não me deixou desistir, me deu ombro pra dormir, aguentou cada contração do meu lado, e me lembrou o tempo todo o que eu precisava lembrar: eu ia conseguir! E também minha mãe, que me fez massagem, me dava água, amor, e força. Meu pai também estava em casa, mas ele só aparecia as vezes, me dava um beijo e um cheiro, e saia. Eu sabia que pra ele não ia ser tão fácil me ver com dor.

[eu dormindo entre contrações, e Léo me dando toda a força que eu precisava ❤️]

Eu entrei na tal da partolândia bem no começo. Lembro de tudo meio espaçado, e tem coisas que nem me lembro, que eles falam, e eu acho que ouvi ou vi, mas não tenho a lembrança clara na minha cabeça. Eu só tenho a lembrança de sentir o Marvin chegando. Ele realmente estava chegando. Me conectei com meu corpo e com meu filho, entrei realmente num mundo que era só meu e do Marvin. Faltava muito pouco pra tudo que eu tava vivendo nos últimos 9 meses se tornar real, pra gente ver a carinha dele, que eu nunca consegui imaginar como fosse.

Alexia chegou por volta de 5 da manhã. Checou minha pressão, batimentos do bebê, tudo certo. Vamos ver como tá a evolução? Vamos! 2 a 3 centímetros. Eu sabia que ainda era bem pouco. Não fiquei chateada, faz parte do processo. Ta tudo bem. Eu ainda não estava em parto ativo que é a partir de 5cm. Ela nos disse então que ia esperar com a gente mais uma hora pra ver se evoluía. Pra mim o tempo parecia estar diferente. Era mais rápido e ao mesmo tempo devagar, bem sem explicação mesmo. Sei que ela voltou pra me checar de novo, e eu ainda estava com a mesma dilatação. Ela falou que ia embora e que era para o Leo ligar de novo quando minhas contrações ficassem mais “verbalizadas” ou quando ele visse algum sangue.

E as contrações ficaram diferentes mesmo. Eram mais intensas, parecia bem mais difícil de me concentrar. Eu sei parir, meu filho sabe nascer. I’m the one with the force and the force is with me. Comecei a verbalizar cada contração, não conseguia só respirar fundo, eu tinha que gritar, que chorar, que mudar de posição. Léo diz que eu até pedi pra desistir, pra me levar pro hospital e me dar anestesia, mas eu não lembro, o que é bem bizarro, porque só lembro de pensar que eu ia conseguir.

E ficamos nisso um bom tempo. Eu não tinha ideia de que horas era, ou de quanto tempo eu estava ali. Vi amanhecer, lembro de as vezes ver as pessoas comendo, falando, mas eu não estava realmente presente.

No meio de uma contração ouvi minha mãe avisando o Léo que tinha sangue. Liga pra Alexia, avisa que tem sangue, ela fala comigo, eu mal conseguia falar, eu tinha a impressão que não tinha mais intervalo entre uma contração e outra. Ela disse que estava voltando pra me checar.

Eu não tinha expectativa nenhuma. Quando ela chegou, depois de checar os batimentos do Marvin, ela me pediu pra ver como estava a evolução e eu lembro de já esperar que ela falasse 4cm, porque apesar da dor ter ficado mais intensa, na minha cabeça poderia ser muito pior. E aí veio a boa notícia, eu já estava com 8 a 9cm de dilatação. Eu ri e sorri, eu chorei. Eu fiquei feliz, aliviada, meu corpo todo relaxou, e pra mim algo que parecia uns 10 minutos depois, eu comecei a sentir vontade de fazer força. Alexia me pediu pra esperar, ela já tinha ligado pra midwife extra (sempre é uma pra mãe, e uma pro bebê, que só vem quando já tá quase na hora de nascer), e ela começou a preparar tudo. Isso era por volta de 9:30 da manhã.

Eu tava muito preparada para as contrações. Mas eu não estava nada preparada para o expulsivo. Quando as outras midwives chegaram, e a Alexia me disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade, eu vi que eu não entendia direito onde fazer a força. Comecei a ter vontade e a tentar empurrar, mas era muito confuso pra mim onde eu tinha que concentrar a força.

Tentei diferentes posições e nada era confortável. Comecei a ficar cansada, bem cansada. As dores mudaram, eu sentia o Marvin, mal conseguia fechar a perna, minha sensação é que ele tava quase saindo.

Depois de tentar empurrar muito ainda na cama, e sem sucesso, Alexia sugeriu que eu saísse dali, fosse para o chão. O problema era me movimentar no meio das dores, daquela vontade de fazer força e no meio de tanto cansaço. Eu tava exausta! Fui para o chão, tentei ficar em pé, de cócoras, tudo sem sucesso. Eu me sentia muito fraca pra tudo. E ai deitei ali no chão mesmo, e a Alexia começou a me instruir em como respirar, como fazer força e como segurar meu corpo em cada contração que vinha.

Pra mim tudo aquilo era de longe a parte mais difícil. Mas, em uma das forças a Alexia me falou, Marcela, eu to vendo a cabeça dele, mas quando a contração acaba ele tá voltando, você precisa fazer mais força! Acho que se teve algum momento que duvidei realmente se eu ia conseguir, foi esse. Eu não tinha mais energia, estava realmente esgotada. Mas, eu continuei, tentei fazer tudo que ela me falava.

Hora de verificar os batimentos do Marvin. Os batimentos estavam ficando mais fracos, e eu sabia que ou ele nascia, ou eu ia ter que ser transferida para o hospital. A Alexia me olhou e falou: ele precisa sair agora! Eu tentei, e tentei de novo. Fazia força, tentava seguir as instruções, mas não conseguia. E aí ela me falou a palavra que eu mais tive medo durante toda minha gestação: episiotomia. Meu filho precisava nascer aquele momento. Foi necessária e aconteceu. E logo em seguida, as 12:54 da tarde do dia 7 de novembro, após fazer força mais uma vez, eu pude ver e sentir o meu bebê. Com 3.500g e 51cm, o Marvin nasceu.

DEPOIS

Nada no mundo pôde me preparar para o momento que vi meu filho pela primeira vez. Eu consegui. Eu pari. Ele era lindo, igual o pai dele. Um bebê grande, cabeludo e bochechudo. Nosso filho.

Ele chorou um pouco, falei pra ele que tava tudo bem e que eu o amava. Ele ficou em cima de mim, e ele tinha o melhor cheiro que eu já tinha sentido na vida, quase que viciante. Depois que o cordão parou de pulsar, Léo cortou, e ficamos ali, no meio de todo mundo, mas parecia que era só eu, o Léo e o Marvin. Como a gente conseguiu fazer aquele bebê tão perfeitinho? Pra mim existiu um amor que nasceu naquele momento. Um amor que eu nunca tinha sentido antes, profundo, incrível. Ele era o bebê mais lindo que eu já tinha visto na vida, e ele era meu, tinha saído de mim, e tava segurando meu dedos com a mãozinha fofa dele.

Depois da placenta sair, saímos do chão, fomos pra cama. Marvin fez a pega certinha, e fez um mamazão, o primeiro dele. Mas sobre amamentação e puerpério, vou tentar fazer outro post.

Parir é poderoso. Eu fiquei me sentindo como se tivesse poderes. Meu corpo pode tudo! Ser mulher é maravilhoso mesmo. Parir dói, cansa, mas juro, eu pensei que seria bem pior do que realmente foi. Eu tive meu parto natural e em casa como eu quis. E tive durante o tempo todo apoio e amor do Léo, fizemos isso juntos, e como durante toda minha gravidez, no parto também não me senti sozinha em nenhum momento.

Falei pra todo mundo enquanto Marvin mamava aquela primeira vez, que eu vou ter outro filho. Sem nem saber direito o que vinha e ainda vem pela frente, quero passar por toda essa sensação de novo.

Quando penso nas coisas que eu queria que fossem diferentes, penso que eu deveria ter me preparado mais para o momento de fazer força assim como me preparei para as contrações. A episiotomia foi difícil pra eu aceitar, mas entendi que foi necessária, e hoje, completamente cicatrizada, vejo que não foi nada demais, que não ficou nenhuma marca, e principalmente, que não foi uma violência obstétrica. E também me arrependo de não ter contratado uma fotógrafa pra esse dia, tenho pouquíssimas fotos, porque nosso plano do Léo fotografar obviamente não funcionou.

Demorei bastante pra conseguir terminar esse post, e sei que com certeza não consegui falar sobre tudo o que foi aquele dia. Mas, tá aqui, da melhor forma que consegui escrever, pra que eu tenha esse registro, esse texto sobre o dia mais incrível da minha vida.

Que delícia ser mãe desse menino.

[primeiro retrato que o papai fez da gente]

[Marvin com 40 dias ❤️]